Mar Grande: artista espalha poemas em homenagem a vítimas de tragédia

Carlos Machado, 64, conhecido como Mano Bili, passou a escrever sobre a dor e o luto (Foto: Nilson Marinho/CORREIO)

Morador da Ilha de Itaparica, o aposentado Carlos Machado, 64 anos, sequer terminou o ensino fundamental, mas sabe traduzir com cátedra o sentimento de uma população inteira pelas 19 vítimas do acidente com a lancha Cavalo Marinho I, em Mar Grande, na última quinta (24).

Mesmo com pouco estudo, a forma que encontrou de homenagear os mortos, uma semana após o acidente na Baía de Todos os Santos, chama a atenção. Em versos, o morador da Ilhota, localidade vizinha a Mar Grande, na cidade de Vera Cruz, ele confere a si mesmo a responsabilidade de traduzir a dor dos vizinhos, familiares e amigos.

No caderno mal tratado que carrega embaixo do braço, Mano Bili, como o aposentado é conhecido, esconde seus poemas que, depois da tragédia, passaram a ser vistos por todos os passageiros que descem das embarcações que atracam no local. Um dos versos, feito um dia depois do acidente com a lancha, foi colado por ele num monumento que fica em frente ao terminal de Mar Grande.

E é nesse mesmo monumento, feito em homenagem à cidade, que calçados, roupas e pertences de algumas das vítimas permanecem, em meio às flores, fotos, velas e cartazes com dizeres de luto. Foi uma forma que os familiares e amigos encontraram de lembrar do acidente e, talvez, fazer com que as autoridades possam investigar a responsabilidade do ocorrido.

Em um dos poemas, feito com letras garrafais, Mano Bili se preocupou em colorir as palavras, antes de fixá-lo no monumento. No cartaz, lê-se:

“Até mesmo nos graciosos e frágeis cavalos marinhos / se encontra a diferença de sorte. / Uns enfeitam aquários da vida / outros, enfrentam naufágios pra morte.”

Frágil Cavalo Marinho I, embarcação temida por alguns passageiros que não se arriscavam fazer a travessia nele, principalmente em dias chuvosos, como aquela fatídica manhã de quinta-feira.

“Esse lugar sempre me inspirou de uma outra forma. Sempre escrevi sobre o verde do mar, sobre a paisagem. Dessa vez, o motivo foi outro; um motivo muito triste, por sinal. Só quem é poeta sabe reparar nessa tragédia e transformá-la em palavras”, acredita o aposentado.

Em outro trecho de um poema que ainda permanece rabiscado no caderno, o poeta diz:

“Solidários pescadores, nativos salvando vidas, corais cortando amores. / Agosto que foi desgosto, setembro será de flores.”

Contudo, setembro serve apenas para ilustrar um futuro mais distante, afinal, a ferida é recente e deve levar tempo para fechar. Nem ele mesmo sabe presumir quanto tempo será preciso para a ilha se reerguer.

“Não é o setembro de amanhã, do próximo mês. É o setembro futuro. É o tempo melhor que virá, quando as dores serão esquecidas”, avalia o poeta, antes de retornar para sua casa, na Ilhota, onde mora com a irmã e seu fiel companheiro, o vira-lata Preto, que não largou do pé do artista enquanto ele esteve prestando mais uma homenagem às vítimas.

Fonte: Correio* Foto: Nilson Marinho/CORREIO

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