Filme com Cauã Reymond abre Festival de Brasília

importantes festivais de cinema do país, deu início à sua histórica 50ª edição na noite deste sexta, 15, com performance de Matheus Nachtergaele. Ele lembrou nomes que marcaram a arte cinematográfica do país, de ontem e de hoje, e reverenciou os candangos – trabalhadores que construíram e povoaram Brasília.

O homenageado da noite foi o precursor cineasta Nelson Pereira dos Santos, um dos nomes a criar o Cinema Novo. Diretor de clássicos como “Vidas Secas” (1963), “Rio 40 Graus” (1955) e “Memórias do Cárcere” (1984), Nelson não esteve presente na abertura por conta da idade avançada.

Outra homenagem importante foi para Geraldo Moraes, lembrança pelo seu recente falecimento. Para a ocasião, foi exibido o curta-metragem “Um Cineasta no Coração do Brasil”, ode ao legado que Geraldo deixou ao cinema, dirigido pelo filme do cineasta Bruno Torres.

Conflitos fronteiriços 

E para coroar a abertura, foi exibido o longa-metragem “Não Devore Meu Coração”, de Felipe Bragança, um filme de muitas camadas e elementos. Talvez por isso ele se desequilibre tanto ou tenha dificuldade de encontrar seu tom. A história se passa na fronteira entre Brasil e Paraguai, no Mato Grosso do Sul, e reacende os conflitos entre brasileiros e indígenas das tribos Guarani.

Fernando (Cauã Reymond) faz parte de uma gangue de motoqueiros, em constante conflito com um grupo indígena mais rebelde, separados pelo Rio Apa. Paralelo a isso, o irmão dele, Joca (Eduardo Macedo), apaixona-se por uma garota indígena, a destemida Basano (Adeli Benitez). Ao mesmo tempo, corpos de índios mortos começam a aparecer no rio.

O filme é baseado em dois contos do livro “Curva do Rio Sujo”, de Joca Terron. “Na leitura do livro eu comecei a me apaixonar por um imaginário dessa região de fronteira, um lugar que eu não conhecia. E o livro tratava desse espaço na chave da memória afetiva, da fragmentação poética, e menos com a ideia de uma crônica social”, afirmou o cineasta.

O filme remete a um passado de violência e extermínio dos povos indígenas – bestialidade que se perpetua até os dias atuais – e tem relação com a Guerra do Paraguai, quando muitos índios lutaram a favor do Brasil. A maioria foi morta e os que sobreviveram foram esquecidos. No entanto, o filme lida muito com as relações afetivas que se estabelecem ali, sejam familiares ou amorosas.

“É um trabalho muito sensorial, foi uma ótima experiência. E foi muito gostoso de ter a oportunidade de construir essa dramaturgia e convidar o colega a entrar nela”, revelou Cauã Reymond, falando mais especificamente da oportunidade de trabalhar com atores não profissionais com os quais ele divide a maioria das cenas.

Meio termo 

A fabulação e a imaginação também são elementos que atraem muito o diretor. “Eu não acredito que consiga filmar nada que não me remeta a um lugar de sonho. Eu gosto de pegar os elementos que estão no lugar e aumentar o volume”, disse Bragança, ao falar dessa tentativa de fugir de um realismo muito marcado.

Nos filmes anteriores do cineasta, havia sempre uma presença muito forte de uma estética fantástica, carregada de uma fabulação profunda, até mesmo corajosa – são obras como “A Alegria” ou a websérie “Claun – Os Dias Aventurosos de Ayana”. Em “Não Devore Meu Coração”, essa fabulação está menos acentuada.

“O filme trabalha com fabulações que estão em embate com a realidade. E mais do que isso, são fabulações diferentes: tem a do menino Joca que tenta organizar o mundo dele dentro da estrutura do amor romântico; e tem o imaginário do Fernando, que tem um ar niilista, mas acaba sendo um idealista dentro daquela gangue de motoqueiros. E o que os conecta são os resquícios de História”, defende o diretor.

Entre ser um filme que ecoa a História do país e uma trama de conflitos familiares, amorosos e afetivos, via tensão e violência que permeiam a região, “Não Devore Meu Coração” fica no meio do caminho quando precisa acertar o tom exato que deseja imprimir. Ainda assim, consegue abordar tais questões por meio de uma construção narrativa menos tradicional e mais arriscada.

“Não Devore Meu Coração” tem previsão de estreia nas salas comerciais para o dia 19 de outubro.

Fonte: A Tarde

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