Coletivos de jovens poetas transformam ônibus em palcos itinerantes

Usar a poesia para expressar indignação frente aos problemas sociais que afligem Salvador é uma tradição que teve início com Gregório de Mattos (1636-1695), ganhou força com Castro Alves (1847-1871), o Poeta dos Escravos, e se mantém viva nos dias atuais.

Muitos coletivos, em sua maioria formados por jovens, têm organizado saraus, batalhas de poesias faladas (slams) e encontros com o objetivo de fortalecer o movimento e fazer ecoar a voz da periferia.

Em meio à luta por ocupação de espaços, os ônibus urbanos têm se tornado um lugar onde poetas e poetisas apresentam diariamente seus versos e rimas. O público do buzu tem sido prioridade porque dividem a mesma realidade social dos jovens trovadores.

“Damos as mãos aos nossos, a quem realmente precisa de atenção. A quem só nos tira os direitos e oprime, incomodamos com palavras. O nosso objetivo principal é a conscientização, sensibilização e a representatividade”, afirma Breno Silva, integrante do Coletivo Pé Descalço.

O grupo é formado por 11 jovens negros de bairros periféricos de Salvador – Sussuarana, Engomadeira, Cosme de Farias, Suburbana, Castelo Branco e Fazenda Grande. Nasceu em julho deste ano. “A finalidade é impactar jovens e adultos de periferias que não se sentem pertencentes a tal espaço social”, diz Breno.

“Calar-se diante a tanta opressão é o modo mais covarde que há. Vivemos num cenário crítico, por isso faz-se necessário nos unir contra as mazelas que perpetuam e nos castigam há tempos, principalmente quando envolve as questões étnico-raciais”, completa o poeta.

Indignação

“Só vou descansar quando os meus tiverem acesso/ à saúde, educação de qualidade e acesso às boas faculdades/ só vou me conformar/ quando a formatura de pretos for maior que a taxa de mortalidade”, diz o poema Denominação Favela.

Com estes versos, Samuel Lima, também membro do Coletivo Pé Descalço, ganhou atenção dos passageiros da Linha 1005, que sai da Lapa sentido Itapuã. Naquela manhã de sol, o ônibus estava lotado, mas todos os olhares eram direcionados aos jovens e os ouvidos estavam atentos às palavras de indignação recitadas pelo jovem poeta.

“Gosto bastante de ouvir o que eles falam. É interessante porque eles dizem sobre o que passamos no dia a dia. É sobre nossas vidas, sobre nossos jovens. Sempre contribuo com algum dinheiro quando eles entram no ônibus”, comenta a professora Daniela Costa.

Dificuldade

Mesmo com o apoio dos passageiros, os poetas e poetisas enfrentam alguns problemas para conseguir entrar nos ônibus.

“Nem todos os motoristas deixam a gente subir. Queremos apenas apresentar nossa arte, levar conscientização, dar nosso recado. Às vezes, para não chegar com a cara limpa, a gente leva alguma coisa para vender ou pagamos a passagem normal. Só não podemos deixar de falar com os passageiros, nosso público-alvo”, destaca Irlan Damásio, do Coletivo Poeta Urbanos.

A contribuição financeira dos passageiros é uma das formas de sustento dos grupos. “O corre (trabalho) de poesia no buzu nos ajuda bastante. Além de ser uma forma de ajudar na organização do nosso coletivo, também é um incentivo. Valorizamos muito cada contribuição que recebemos”, ressalta Naiara Epifânio, também integrante do Coletivo Poetas Urbanos.

Organização

O movimento em torno da poesia ganha força a cada dia e cruza com outras expressões artísticas, como o rap e o hip-hop. Para Breno Silva, os coletivos também constroem uma corrente do bem entre esses movimentos, e o que prevalece é a solidariedade e não a concorrência. “É uma relação muito amistosa, sempre procurando fortalecer, ajudando na divulgação do trabalho, um do outro”, explica.

Apesar da efervescência da cena poética alternativa, não existe uma entidade que represente os coletivos. “Hoje não temos uma associação que junte todos os coletivos, nem sabemos quantos grupos existem. O escritor Valdeck Almeida de Jesus vem catalogando os coletivos e saraus poéticos de Salvador para ter uma ideia de quantos atuam na cena cultural soteropolitana”, informa o poeta.

Mas a formação de uma associação é uma das metas. “É uma ideia que sempre debatemos: organizar a associação. O espaço que construímos em comum com os outros coletivos apontam nesse sentido. Nós organizamos o Encontro dos Poetas Urbanos, e esse espaço pode ser o pontapé inicial”, avalia a poetisa Naiara Epifânio.

Internet

Para além dos ônibus urbanos, os coletivos de poetas e poetisas divulgam os trabalhos em rodas de conversas, saraus e encontros sempre abertos ao público. A internet também tem sido uma plataforma para a divulgação dos grupos.

Muitos eventos ligados à poesia foram realizados este ano em Salvador. Para 2018 o objetivo é manter o crescimento do movimento. No dia 20 de janeiro, às 16h, na Praça da Bíblia, no Ogunjá, acontecerá a segunda edição do Encontro dos Poetas Urbanos.

“O 2017 foi um ano importante com a ampliação do número de saraus e encontros. Mas tudo isso não é novo. É uma tradição que vem de séculos, mas que buscamos manter viva. O poeta Castro Alves, que dedicou suas palavras a favor da libertação dos negros escravizados, é nossa inspiração. Como a desigualdade social persiste, é necessário persistimos também na resistência. A poesia é uma arma forte a nosso favor”, sustenta o poeta Irlan Damásio.

Coletivo Pé descalço – facebook.com/C.pedescalco

Coletivo Poetas Urbanos – facebook.com/Poetas-Urbanos

Fonte: A Tarde (Fonte: Raul Spinassé | Ag. A TARDE | 19.12.2017)

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